"Eu só aceito a condição de ter você só pra mim
Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir e rir."
[Sentimental - Rodrigo Amarante]
4 de maio de 2012
28 de fevereiro de 2012
Calada
De início calei-me por medo do que pensariam os outros ao notarem minhas fragilidades, meu eu desarmado, o que havia por trás do olhar vago. Depois, com o passar dos anos – e a perda da inocência – percebi que se eu pudesse me virar do avesso em plena praça poucos enxergariam – ver é fácil, enxergar exige esforço – porque são raras as pessoas que se interessam pela massa sentimental de que as almas são feitas. Hoje, assumo o rótulo: sou introspectiva sim. O silêncio me ensinou que nem todos querem saber por que você caiu, por que você chegou no fim da estrada, o que você pensa antes de dormir. O silêncio pode ensinar muitas coisas, muito mais do que o eco das palavras desperdiçadas ao serem ditas para alguém que não ouve. Enfim e por fim calei-me pra ver quem quer saber de mim.
15 de fevereiro de 2012
Andorinha
Andorinha lá fora está dizendo:
— "Passei o dia à toa, à toa!"
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...
[Manuel Bandeira]
— "Passei o dia à toa, à toa!"
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...
[Manuel Bandeira]
24 de janeiro de 2012
"- Acho que sim. Quando noviça, eu pensava muito na minha gente. Sabia que não ia voltar mas continuava pensando com tanta força. Como quando se tira um vestido velho de um baú, um vestido que não é para usar, só para olhar. Só para ver como ele era. Depois a gente dobra de novo e guarda mas não se cogita em jogar fora ou dar. Acho que saudade é isso."
[Lygia Fagundes Telles em "As meninas"]
[Lygia Fagundes Telles em "As meninas"]
16 de janeiro de 2012
Preguiça de intitular
"E foi seguindo a menina dos contrários
Que de tão certa se perdia numa estrada errada
Que não gostava de cumprimentar os outros nos jantares
Que chorava na hora de dizer e cantava no silêncio
Que ria nas horas sérias
Parecia fria feito brasa, mas ardia como gelo
Que, pela vazio dos olhos, imaginavam ser profunda
Mas era rasa de tanta letra em sua mudez
Quanta coisa ela queria dizer com a língua parada
Tinha preguiça de tentar ser entendida
Tão entediada com os rótulos
Quis inventar um novo jeito
Foi alternando entre os trejeitos
Mas não teve efeito, só era mais uma menina"
15 de janeiro de 2012
Soberania
Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.
[Manoel de Barros]
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.
[Manoel de Barros]
7 de janeiro de 2012
Cecília Meireles
Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.
Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.
E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.
Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silêncio da coisa irrespondida.
6 de janeiro de 2012
Filosofia
"(...) Quanto a você
Da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava desta gente
Que cultiva hipocrisia."
[Noel Rosa]
Da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava desta gente
Que cultiva hipocrisia."
[Noel Rosa]
Balada de agosto
"Lá fora a chuva desaba e aqui no meu rosto
Cinzas de agosto e na mesa o vinho derramado
Tanto orgulho que não meço
O remorso das palavras
Que não digo
Mesmo na luz não há quem possa
Se esconder do escuro
Duro caminho o vento a voz da tempestade
No filme ou na novela
É o disfarce que revela o bandido
Meu coração vive cheio de amor e deserto
Perto de ti dança a minha alma desarmada
Nada peço ao sol que brilha
Se o mar é uma armadilha
Nos teus olhos"
[Zeca Baleiro]
Cinzas de agosto e na mesa o vinho derramado
Tanto orgulho que não meço
O remorso das palavras
Que não digo
Mesmo na luz não há quem possa
Se esconder do escuro
Duro caminho o vento a voz da tempestade
No filme ou na novela
É o disfarce que revela o bandido
Meu coração vive cheio de amor e deserto
Perto de ti dança a minha alma desarmada
Nada peço ao sol que brilha
Se o mar é uma armadilha
Nos teus olhos"
[Zeca Baleiro]
Pessoa
“Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma página de romance por escrever, passando aérea e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube contemplar”.
[Fernando Pessoa - Livro do Desassossego]
[Fernando Pessoa - Livro do Desassossego]
Bandeirando
“Dê a este novo Isaías
Não visões, não profecias:
Dê o que falta a tanta gente
-Pureza d’alma, semente
Das celestiais alegrias”.
[Manuel Bandeira]
Diversidade
“Enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo seria cansativo; mas uma distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida”.
[Machado de Assis em Quincas Borba]
Céu
"Despeço-me desse mundo não como um suicida desvairado que não vê na existência nenhum motivo para lutar. Digo adeus aos pesadelos da realidade, aos sorrisos fugidios e às gargalhadas de legítima alegria. Sempre estou insatisfeita com essa felicidade passageira.
Acredito que é possível um lugar onde os meus sonhos mais criativos se realizem, ou melhor, um estado eterno de prazer onde não haja necessidade alguma de realizar nada pela complicada condição de estar satisfeita, coisa grande demais pra essa vida pequena.
Dou adeus a este corpo que me prende, a estes olhos que me deixam só “olhar”, a esta boca que é porta de enfeite, às expectativas que mais que possibilidades, são limites... Já disseram que sou louca, e sou de fato, tenho muito orgulho de ser insanamente apaixonada pelo dono deste lugar. Desculpa se você gosta daqui, estou indo pra minha velha pátria, o céu!"
Lua e flor
"Eu amava
Como amava um sonhador
Sem saber porquê
E amava ter no coração
A certeza ventilada de poesia
De que o dia, amanhece não...
Como amava um sonhador
Sem saber porquê
E amava ter no coração
A certeza ventilada de poesia
De que o dia, amanhece não...
Eu amava
Como amava um pescador
Que se encanta mais
Com a rede que com o mar
Eu amava, como jamais poderia
Se soubesse como te encontrar..."
Como amava um pescador
Que se encanta mais
Com a rede que com o mar
Eu amava, como jamais poderia
Se soubesse como te encontrar..."
[Oswaldo Montenegro]
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